Este texto é da newsletter de Thomas Traumann, enviada toda segunda-feira de manhã com uma análise do cenário político na semana que se inicia. Para ler antes da publicação on-line, direto no seu e-mail, clique aqui para se inscrever. Enquanto sofria com os percalços da seleção brasileira na Copa do Mundo, conversei com ministros e ex-ministros de Lula para tentar antecipar o que pode vir a ser o seu quarto mandato.
Ao contrário de 2022, quando insistiu até o dia da eleição que poderia vencer no primeiro turno, Lula hoje repete que o resultado de outubro será apertado. Ele ouve mais do que fala, pergunta muito e deixa o interlocutor sem a certeza se conseguiu convencê-lo. — O que eu podia fazer na área social eu já fiz.
O fim da jornada 6×1 encerra um ciclo. — disse Lula a pelo menos dois interlocutores. — Agora, é fazer o país crescer sem ser voo de galinha.
No consenso dos interlocutores, o voo do Brasil deixa de ser de galinha para ser de condor com mais investimentos públicos e privados, um Orçamento menos engessado, curva da dívida pública apontando para baixo e juros de um dígito. É mais fácil falar do que fazer, e nesta edição trago os pontos que os interlocutores de Lula concordam e os que eles discordam. Escrevo ainda sobre o maior fenômeno político das redes sociais, o “conde Binface”, um personagem que usa uma lata de lixo no rosto e que transformou em inferno a vida do até agora possível primeiro-ministro do Reino Unido Nigel Farage.
Com propostas como alistamento militar obrigatório para quem usa fones de ouvido no transporte público, instalação de secadores de cabelo nos banheiros públicos para as pessoas secarem suas mãos e punição a ciclista que cometer infrações ao dirigir monociclos, o conde Binface já lidera as pesquisas. Uma lição de como o humor é uma arma incontrolável na política. Boa leitura!
Dias atrás, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ouviu de um ministro que, se não conseguisse promover uma reforma no Orçamento, reduzindo os gastos obrigatórios, passaria os quatro anos de um eventual quarto mandato como um síndico de um prédio velho com goteiras. Noutra semana, Lula ouviu de um político amigo que a pauta do impeachment de ministros do STF deve eleger mais de 30 senadores e o ano de 2027 será perdido com uma crise institucional entre Legislativo e Judiciário. Outro ministro alertou o presidente que seu eventual novo governo enfrentará um choque inflacionário provocado pela combinação do aumento do dólar pela sua vitória, o fenômeno climático El Niño, o repasse de preços de serviços com a reforma tributária e o início da escala de trabalho 5×2.
Desde o início da Copa do Mundo, conversei com cinco ministros e ex-ministros de Lula 3 e três de Lula 1 e 2 para entender quais os cenários de um eventual mandato Lula 4. Os interlocutores do parágrafo anterior descreveram um presidente preocupado e mais aberto a ouvir do que meses atrás. Ao contrário de 2022, quando insistiu até o dia da eleição que poderia vencer no primeiro turno, Lula hoje está cauteloso.
Mesmo depois da divulgação do envolvimento de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, Lula repete que o resultado será apertado e que uma ação coordenada das plataformas de redes sociais a favor da oposição pode interferir na campanha. Há quatro meses, o presidente chama auxiliares e ex-auxiliares para discutir a campanha e o eventual novo governo. Como seria de se esperar, há muitas convergências no diagnóstico sobre os desafios de um novo governo e um sem-número de divergências sobre como resolvê-los.
Com o cuidado de que essas são avaliações do início do processo eleitoral, este é o quadro desenhado pelos assessores e ex-assessores do que pode vir a ser Lula 4: Lula fará 81 anos em outubro e terá 85 se completar um novo mandato. É natural que esteja preocupado com o seu lugar na história: No consenso dos interlocutores, o voo do Brasil deixa de ser de galinha para ser de condor com mais investimentos públicos e privados, um Orçamento menos engessado, curva da dívida pública apontando para baixo e juros de um dígito. É bem mais fácil falar do que fazer.
Ciclo de gastos – Ao contrário de 2023, quando recebeu de Bolsonaro um orçamento fictício e decidiu politicamente começar o mandato com o pé no acelerador, Lula quer voltar ao ciclo tradicional de gastos da máquina pública brasileira. Faz-se um ajuste no primeiro ano e os gastos vão num crescendo até o fim do mandato. Reforma do Orçamento – Os lulistas concordam que é impraticável seguir governando com as regras do Orçamento atual, com mais de 90% do gasto engessado em despesas obrigatórias e as emendas parlamentares tomando 25% dos investimentos.
Existem estudos internos, ainda sem o aval final do presidente, para que o ritmo de crescimento das despesas obrigatórias passe a seguir o arcabouço fiscal (entre 0,6% e 2,5% por ano acima da inflação). Nas conversas, Lula disse que o dinheiro economizado dos gastos obrigatórios será usado para investimento público. Controle de gastos – O PLDO (Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias) enviado em abril prevê medidas de revisão de benefícios sociais, menos concursos públicos, controle de subsídios, gatilho que proíbe novas renúncias fiscais e que a despesa de pessoal cresça 0,6%, o piso do arcabouço fiscal.
Em agosto, o governo vai confirmar esse projeto, prometendo não aumentar impostos, reduzir os gastos fora do Orçamento e mirar um superávit de 1% do PIB em 2028. Reforma do Judiciário – É constante a preocupação do presidente com a crise de imagem do Supremo Tribunal Federal. Se for reeleito, Lula quer adotar a proposta do ministro Flávio Dino de uma reforma do Judiciário, que deve incluir um mandato para os ministros do STF.
Supersalários – O governo quer recuperar a proposta que enviou no ano passado de proibir penduricalhos no serviço público. Política externa – Lula acredita que a relação com Donald Trump voltará ao normal depois das eleições, mas tem mostrado contrariedade com as seguidas sobretaxas criadas pela União Europeia para produtos brasileiros. Os interlocutores de Lula divergem muito sobre outros temas: Reforma da Previdência – Como o PT tem ojeriza ao nome, podem chamar de outra coisa, mas há ideias de uma reforma tanto na arrecadação patronal (que pode ser sobre receita bruta para todos os setores e não apenas alguns), como de categorias específicas do serviço público, como os militares.
A resistência a mudanças na Previdência é grande no PT. Juros subsidiados – Parte da equipe considera que não há condições de se ampliar o investimento com o Tesouro emprestando para as empresas abaixo da taxa de mercado. O subsídio pode funcionar no curto prazo, mas o Brasil não tem fôlego para crescer assim por quatro anos.
A única saída seria criar as condições para uma queda não artificial da Taxa Selic, com a redução da dívida pública e recuperação da credibilidade com o mercado financeiro. Outra ala acredita que a saída para mais investimentos está justamente em linhas de longo prazo de fundos públicos, como o do pré-sal, e bancos como o BNDES. Lula terá de arbitrar essa questão.
Relação com o Congresso – A missão impossível do eventual próximo governo será convencer o Legislativo a diminuir o volume de emendas parlamentares, que dão a garantia de reeleição, sem o ônus de ser governo. Papel de Haddad – A crença generalizada fora de Brasília de que Fernando Haddad terá um papel central no Lula 4 revela mais desejo do que um fato consumado. Primeiro, porque Haddad ainda é candidato ao governo de São Paulo.
Segundo, porque nenhum dos interlocutores de Lula acredita que o presidente esteja disposto a ter um primeiro-ministro. Como a relação dos dois é cheia de nuances, a decisão será tomada por eles mesmos. Sucessão de 2030 – O PT sabe que, sem Lula, torna-se uma legenda comum e, por isso, a escolha do candidato em 2030 será antecipada para impedir a implosão do governo com uma disputa interna.
Hoje, Fernando Haddad é o favorito, e nomes como Camilo Santana e Guilherme Boulos (que ainda está filiado ao PSOL) correm por fora. Pela segunda vez em sete meses, o candidato Flávio Bolsonaro precisou usar uma carta manuscrita do pai, Jair Bolsonaro, para manter sua candidatura viva. Na primeira vez, em dezembro, Flávio precisava mostrar que sua candidatura era para valer.
Na segunda, revelada em transmissão pela internet no sábado (11), ele leu no YouTube um texto em que o pai pede que “possíveis diferenças sejam deixadas de lado”, uma estocada na mulher, Michelle Bolsonaro. O ex-presidente demorou 17 dias para divulgar uma carta de apoio ao filho e críticas à mulher por óbvias questões familiares, mas também judiciais. Como afirma o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido como Kakay, a divulgação do texto representa uma violação das medidas cautelares impostas pelo STF.
Na manutenção da prisão domiciliar de Bolsonaro, o ministro Alexandre de Moraes proibiu o uso de redes sociais, direta ou indiretamente, inclusive por meio de terceiros, para divulgar mensagens, vídeos ou manifestações. Assumir o risco de uma nova punição de Alexandre de Moraes ao pai mostra o nível de tensão da campanha de Flávio Bolsonaro, mergulhada há quase três meses numa espiral de intrigas, erros de avaliação e medo de novos escândalos. A sua participação na audiência pública sobre o novo tarifaço dos EUA na quarta-feira (8) foi patética e, como não pode ser filmada, sequer rendeu cortes de internet.
No Rio de Janeiro, o PL está desmoronando em denúncias de corrupção, agora contra o candidato ao Senado da aliança estadual, Márcio Canella. Na sexta-feira (10), o Supremo Tribunal Federal determinou o bloqueio de bens do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, por ser suspeito de direcionar emendas parlamentares mesmo sem ter mandato no Congresso. Ao longo da semana, o entorno do irmão Eduardo coordenou ataques públicos à comunicação da campanha e iniciou um processo de fritura do coordenador-geral, Rogério Marinho.
O medo da divulgação de vídeos do candidato com mulheres ronda a agenda de eventos. Confira as desventuras de Flávio Bolsonaro só nos últimos dias (note que nenhum percalço foi causado pela campanha de Lula): • Como revelou a colunista Bela Megale, de O GLOBO, o temor de um novo escândalo não gira em torno de vídeos de festas com o banqueiro Daniel Vorcaro, mas de imagens de outro episódio que, quatro anos atrás, provocou uma crise no casamento de Flávio. A esposa, Fernanda, se dispôs a defender o marido publicamente, com o discurso de que ele agora frequenta uma igreja evangélica e que a família “está mais forte do que nunca”.
• Como noticiou a repórter Andréia Sadi, da GloboNews, o coordenador da campanha, Rogério Marinho, é atacado por centralizar as decisões e dificultar a acomodação de outras lideranças. Há uma suspeita espalhada pela guerrilha digital de Eduardo Bolsonaro de que Marinho gostaria de ser o candidato, em uma chapa com a madrasta Michelle Bolsonaro como vice. Em vídeo, o porta-voz de Eduardo, Paulo Figueiredo, afirmou que há um “desastre de comunicação” e que a campanha é “insossa” e se preocupa demais com a imprensa.
No X, o ex-secretário de comunicação do governo Bolsonaro Fábio Wajngarten afirmou que “time que não performa tem que mexer” e sugeriu a substituição do time de marketing liderado pelo publicitário Eduardo Fisher. A equipe foi contratada por Rogério Marinho. • Na quinta-feira (9), Michelle Bolsonaro lançou o movimento “Imparáveis”, para apoiar suas candidatas em outubro.
No primeiro post do novo perfil, seus assessores postaram trecho do filme Mulher Maravilha, de 2017, com a legenda “em meio a dificuldades, é preciso coragem para avançar. Mulheres e Homens de Bem jamais desistem de lutar por justiça e liberdade”. No domingo (12), a senadora Damares Alves anunciou sua saída da campanha de Flávio Bolsonaro.
Michelle não vai parar. • Durante a semana, a PF prendeu Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo e pré-candidato ao Senado pelo União Brasil, na chapa de Flávio Bolsonaro. Canella tinha um fuzil no carro.
Afinal, quem mora no Rio e nunca saiu de casa com um fuzil, não é mesmo? Canella é o segundo pré-candidato ao Senado de Flávio derrubado por operações policiais. O primeiro foi Cláudio Castro, pego no caso Master e nas investigações sobre benefícios concedidos à Refit, do empresário Ricardo Magro.
O primeiro candidato de Bolsonaro ao governo, o ex-deputado Rodrigo Barcellar, está preso, suspeito de vazar informações de operações policiais aos traficantes do Comando Vermelho. No domingo (12), o colunista Merval Pereira, de O GLOBO, informou que as investigações promovidas pelo governo interino do Rio de Janeiro indicam que Flávio Bolsonaro está envolvido diretamente no esquema criminoso montado pelo ex-governador Cláudio Castro. • Como informou Lauro Jardim, em O GLOBO, enquanto faz campanha atacando a política de segurança do PT, Flávio Bolsonaro não colocou para andar o projeto que endurece penas para o furto, roubo e receptação de combustíveis.
O projeto foi avocado por Flávio Bolsonaro como presidente da Comissão de Segurança Pública do Senado em 12 de junho e engavetado. • A recente pesquisa Datafolha dá uma dimensão de como essas crises em série afetam as chances de Flávio Bolsonaro no Estado de São Paulo. Em 2022, Jair Bolsonaro venceu Lula com uma vantagem de 10,6 pontos percentuais em votos válidos.
Agora, diz a pesquisa, essa vantagem no estado foi reduzida a 3,4 pontos percentuais dos votos válidos. O caso fica mais grave quando esse cenário é comparado com a eleição para governador. No segundo turno, diz o Datafolha, o governador Tarcísio de Freitas teria 59% e Fernando Haddad 41%.
Atacado dia sim, noutro também pela guerrilha digital de Eduardo Bolsonaro, Tarcísio faz uma campanha sobre o seu governo, não sobre Bolsonaro. A distância é intencional. Pesquisas internas da campanha de Tarcísio mostram que o escândalo Master afetou duramente a imagem de Flávio Bolsonaro e teria potencial para contaminar o governador.
• Nesta quarta-feira (15), o Escritório de Comércio dos EUA deve confirmar uma sobretaxa de 25% sobre 4.187 produtos brasileiros, afetando 20% das exportações entre os dois países. Nos menos de cinco minutos em que falou na audiência pública sobre o novo tarifaço, Flávio Bolsonaro não concatenou argumentos para convencer os EUA. Disse que a sobretaxa viria “no pior momento”, como se houvesse um bom.
Numa carta anterior, havia proposto sair do Mercosul e isentar as empresas americanas de cartão de crédito. Mesmo empresários antipetistas se assustaram com a tibieza de Bolsonaro na defesa dos interesses das indústrias brasileiras. É possível sustentar que o efeito econômico dessa medida é inferior aos da cota de exportação de carne para a China e das restrições sanitárias que a União Europeia vai implantar em setembro, mas, afinal, que outro candidato tem um irmão que faz lobby contra o Brasil?
Em Brasília se diz que a primeira coisa a fazer para sair de um poço é parar de cavar. Faltando 16 semanas para o segundo turno, Flávio Bolsonaro precisa parar de aumentar o buraco em que está metido. Não existe acaso em Brasília.
O vazamento de documentos da Comissão de Valores Mobiliários que atestam a prosperidade do advogado Kevin Nunes Marques, filho do ministro Kássio Nunes Marques, do STF, e atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral, não é aleatório. Como revelaram os repórteres Lucas Marchesini e Thaísa Oliveira, da Folha, documentos obtidos pela CPI do Crime Organizado mostram que o patrimônio de Kevin em fundos de investimento cresceu R$ 22 milhões — de R$ 5 milhões para R$ 27 milhões — em 2025. Kevin tem 25 anos e dois anos de formado.
É uma ascensão notável, até mesmo para o notoriamente alto padrão de desempenho demonstrado por filhos de ministros de tribunais superiores e do TCU na advocacia. O vazamento das informações três meses depois do fim da CPI indica que o árbitro da eleição estará sob julgamento. Foi-se o tempo dos postos de gasolina e das empresas de ônibus como instrumentos preferidos de lavagem de dinheiro ilegal.
As empresas de táxi aéreo são uma nova vertente desse mercado, como mostram as recentes operações da Polícia Federal. Além de desfrutar do conforto de viajar quando quiser, o dono de aviões pode atuar num mercado de aluguel sem preços regulados e pouco controle. No passado, combustíveis e transporte eram atrativos por permitirem pagamento em dinheiro vivo.
Os tempos mudaram. O uso dos postos de combustíveis por facções criminosas já é alvo de grandes investigações. Empresas de ônibus se tornaram menos atrativas desde a drástica redução dos pagamentos em dinheiro.
O aluguel de aviões tem preços livres. É um meio flexível: é comum que donos de aviões usem o expediente informal da troca de horas de voo, que não envolve pagamentos diretos. O menor controle em aeroportos privados permite o superfaturamento do número de voos, de horas de voo e dos preços, que escondem a receita real.
Investigações da PF mostram a predileção de alguns políticos do PP e do União Brasil por essa nova modalidade de lavagem de dinheiro. Atitudes simbólicas dificilmente geram votos, mas evitam a perda deles. A postura de Lula da Silva em relação ao arroubo trumpista-bolsonarista do presidente da Colômbia, Gustavo Petro, não vai lhe garantir um voto a mais de eleitores indecisos, mas fecha a porta para acusações de leniência com aliados de esquerda.
Em 21 de junho, o candidato de Petro, Iván Cepeda, foi derrotado pelo candidato da extrema direita, Abelardo de la Espriella, um outsider apoiado por Donald Trump, por uma diferença de 0,96 ponto percentual — cerca de 200 mil votos num universo de mais de 25 milhões de eleitores. Num arroubo digno de Jair Bolsonaro, Petro primeiro alegou fraude no primeiro turno, quando Cepeda passou em segundo lugar. Voltou a falar em fraude após a vitória de Abelardo, sem apresentar nenhuma prova.
Na segunda-feira, botou fogo no país ao tuitar: “O presidente da Colômbia não reconhece a legitimidade do novo governo. Abelardo não venceu as eleições”. O Brasil estava vacinado.
Em 25 de junho, logo depois do resultado oficial, Lula da Silva reconheceu a vitória de La Espriella. Em telefonema na quinta-feira, Lula deu um corretivo em Petro. Líder do partido populista Reform UK, Nigel Farage sempre foi bem-sucedido no papel de outsider na política britânica.
Político de extrema direita, radical anti-imigração, Farage foi um dos maiores responsáveis pelo Brexit, o maior erro do reino desde a não adoção do sistema métrico. Na terça-feira (7), Farage renunciou ao cargo de deputado pelo distrito de Clacton, na costa leste da Inglaterra, devido a investigações por não declarar doações de 5 milhões de libras de um bilionário investidor em criptomoedas — coisa comum aos políticos do sistema que ele costuma criticar. Em seguida, se candidatou à própria vaga.
“Esta será uma eleição suplementar do povo contra o establishment”, disse. A estratégia de Farage era simples: uma reeleição consagradora provaria que seus eleitores não ligam para as acusações, constrangeria as investigações e o fortaleceria para a disputa para primeiro-ministro em uma próxima crise do governo trabalhista. Temendo legitimar a tática de Farage, os partidos Conservador e Trabalhista decidiram não lançar candidatos.
Achavam que com isso esvaziariam Farage, mas essa é a reação de quem joga pelo modo antigo. Fora dos partidos, no entanto, surgiu um concorrente à altura de Farage pela vaga: Count Binface (“conde cara de lata de lixo”), uma figura bizarra com capacete em formato de lixeira e estética dos vilões clássicos da minissérie “Doctor Who”. Criação do humorista Jonathan Harvey, Count Binface é uma daquelas maravilhas só possíveis num país que produziu o grupo Monty Python e cujo sistema político permite que qualquer um se candidate por qualquer distrito, independentemente de morar ou não nele.
Em seu perfil no X, Binface diz ter vindo do planeta Sigma IV para defender ideias claras como deputado por Clacton: estatizar a cantora Adele; estabelecer o alistamento militar obrigatório para quem usa fones de ouvido no transporte público; acabar com as renovações automáticas dos serviços online; instalar secadores de cabelo nos banheiros públicos para as pessoas secarem suas mãos; obrigar CEOs de empresas de saneamento a nadar em rios poluídos; tabelar o croissant a 1 libra; punir ciclistas que cometerem infrações ao dirigir monociclos; proibir políticos a renunciarem de seus cargos (como fez Farage); e convidar as nações europeias a se integrarem ao Reino Unido. Um esquete de Monty Python não faria melhor. A antipatia do establishment com Farage e o absurdo da plataforma eleitoral tornaram Binface um fenômeno nas redes sociais.
Em uma pesquisa do Ipsos, Binface aparecia na sexta-feira com 33% das intenções de voto, contra 21% de Farage e 32% de eleitores que não votariam em nenhum dos dois. Nada mau para um novato. Como escreveu o cientista político Brian Klaas: “O voto anti-Farage agora vai inevitavelmente se concentrar em Binface, o que significa que há uma chance real de que a jogada de Farage termine em um desastre hilário.
Mesmo se Farage vencer por uma margem estreita, será um resultado desastroso para ele e para o Reform UK. Nenhum escândalo de criptomoedas poderia causar o mesmo nível de dano político que ser transformado em uma piada facilmente memorável.” Outsiders como Farage, radicais de extrema direita, encontram campo aberto para lidar com o establishment da política. Jair Bolsonaro e Donald Trump enrolaram com facilidade os políticos comuns ao simplesmente ignorar a verdade e mentir em debates.
É simples vencer quem joga pelas regras jogando fora das regras. Em 2019, Farage foi eleito em Clacton com 41,2% dos 46 mil eleitores que foram às urnas. Ao serem expostos ao ridículo, políticos autoritários correm o risco de ver sua autoridade solapada.
Donald Trump aceita ataques de veículos tradicionais, mas reagiu ao ser ridicularizado em programas humorísticos como o tradicional “Saturday Night Live”. Apresentadores como Jimmy Kimmel e Stephen Colbert foram suspensos temporariamente de seus programas por pressão da Casa Branca. A lição de Count Binface contra Nigel Farage é simples: outsiders se sentem bem e se saem bem contra o mainstream.
Mas não sabem lidar quando enfrentam um concorrente no mesmo campo, que subverte as regras. Se vencer em Clacton, Count Binface fará história e pode ensinar a política a enfrentar radicais sem compromisso como Nigel Farage. 7.
Crítica: ‘A Oligarquia dos Poderes’ Se os quase 19 mil juízes que entraram em recesso neste mês de julho se dispuserem a ler um único livro, este deveria ser “A Oligarquia dos Poderes” (Editora História Real/ Intrínseca; 191 páginas; livro: R$79,90; E-book: R$ 35,91) do advogado Joaquim Falcão. Um dos fundadores da Escola de Direito da FGV e referência no debate constitucional, Falcão escreveu um livro para incomodar. A democracia brasileira, diz, está sendo ameaçada por dentro, pelos mesmos juízes, políticos e burocratas que juraram defendê-la.
Contrariando os pesos e contrapesos de Montesquieu e Hamilton, que preveem o controle recíproco dos Poderes, Falcão enxerga no Brasil um conluio, no qual o Legislativo não vota os pedidos de impeachment de ministros do STF e, em troca, consegue adiar para a eternidade as investigações de corrupção parlamentar. Ao invés de um Poder limitar o outro, temos as instituições se protegendo. É uma nova oligarquia: não a que governou o Brasil no início da República, mas uma forma sofisticada em que o estamento político e burocrático se apoderou do poder para manter e ampliar seus privilégios.
O livro é um alerta. Há um descolamento entre os interesses de uma oligarquia de juízes, políticos e burocratas e as necessidades da sociedade. Esta fissura está se alargando e pode rachar o país.
Com a reescalada da guerra do Irã, o barril do petróleo voltou a rondar os US$ 80. Até a definição da evolução do conflito, o Ministério da Fazenda deve adiar o fim do subsídio dos combustíveis. Na sua última semana oficial de trabalho, embora não vote nada de importante desde maio, o Congresso discute a reação à decisão do ministro do STF Flávio Dino de bloquear emendas parlamentares que teriam, na realidade, sido decididas pelos ex-deputados Valdemar Costa Neto e Eduardo Cunha.
Na quarta-feira (15), os EUA devem confirmar o novo tarifaço de 25% contra produtos brasileiros achando que, sob ameaça, os eleitores vão votar contra Lula. A conta vai cair para Flávio Bolsonaro. Na quarta-feira (15), Flávio Bolsonaro lança o projeto “Brasil por Elas”, montado pela sua possível vice Daniella Marques.
A proposta é transformar a Caixa Econômica Federal em um banco para microempresárias. A Genial/Quaest divulga nova pesquisa nacional na quarta-feira. O PL segue tentando fechar um acordo com o Republicanos para ter a administradora de empresas Daniella Marques como vice de Bolsonaro.
O presidente do partido, Marcos Pereira, havia topado, mas recuou depois que o colunista Lauro Jardim revelou que ele queria em troca ser ministro do STF.