Os Estados Unidos voltaram a bombardear o Irã nesta terça-feira, em resposta a ataques contrea três navios na região do Estreito de Ormuz, atribuídos aos iranianos. Além da ação militar, o Departamento do Tesouro americano suspendeu uma licença temporária para a exportação de petróleo do país, em uma série de eventos que põem mais uma vez em xeque o cessar-fogo na região. Contexto: EUA suspendem sanções contra o Irã enquanto mediadores citam avanços para acordo em negociações na Suíça Análise: Guinada de Trump sobre as sanções ao Irã em acordo surpreende ao desmontar décadas de restrições financeiras ao país dos aiatolás Através de suas redes sociais, o Comando Central dos EUA (Centcom) que atua no Oriente Médio, anunciou “uma série de ataques poderosos contra o Irã para impor custos pesados pelo direcionamento e ataque a tripulações de navios comerciais formados por civis inocentes em uma via navegável internacional”.
“Os ataques dos EUA são uma resposta aos ataques iranianos contra três embarcações comerciais que transitavam pelo Estreito de Ormuz. A agressão demonstrada pelo Irã foi injustificada, perigosa e uma clara violação do cessar-fogo”, acrescentou o texto. A imprensa estatal iraniana relatou explosões na cidade portuária de Bandar Abbas, no sul, e na Ilha de Qeshm, na entrada do Estreito de Ormuz e que é uma das principais bases de ação das forças iranianas, especialmente as ligadas à Guarda Revolucionária, na área.
Ao final da noite, o Comando Central afirmou que 80 alvos foram atingidos ao redor do Irã. “Forças dos EUA atacaram sistemas de defesa aérea, redes de comando e controle, instalações de radar costeiro, capacidades de mísseis antinavio e mais de 60 pequenas embarcações do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica — situadas no estreito e em suas imediações — com o objetivo de reduzir a capacidade do Irã de continuar atacando o comércio internacional que transita por esse corredor comercial”, diz o segundo comunicado. “As forças do Centcom permanecem em posição de prontidão para responsabilizar o Irã sempre que o acordo não for respeitado ou cumprido.” À estatal PressTV, uma fonte no governo iraniano afirmou que qualquer ação provocativa será respondida de forma “imediata e decisiva”.
Na semana passada, o vice-ministro das Relações Exteriores do Irã para Assuntos Jurídicos e Internacionais, Kazem Gharibabadi, disse que o Estreito de Ormuz “está sob o comando do Irã, e não do Comando Central dos EUA”. De acordo com a agência britânica de segurança máxima UKMTO, três navios foram atingidos por projéteis nas águas do Estreito de Ormuz nas últimas 24 horas: dois deles sofreram danos causados por projéteis não identificados, causando incêndios e “danos estruturais”. No terceiro, a tripulação relatou estragos de pequeno porte causados por um drone.
Não há relatos de feridos. O Catar — um dos mediadores no conflito no Oriente Médio — denunciou que um navio que levava gás liquefeito foi alvejado enquanto navegava perto da costa de Omã, responsabilizando o Irã pelo ataque, e convocou o vice-embaixador do país para prestar uma queixa e exigir que o Irã “cesse imediatamente quaisquer práticas que prejudiquem a segurança regional e que se abstenha de colocar em risco a segurança da navegação internacional e o fornecimento global de energia”. — Consideramos o Irã plenamente responsável, do ponto de vista legal, por esse ataque e por qualquer dano ou repercussão decorrente dele — declarou o ministro das Relações Exteriores do Catar, Majed Al Ansari.
Guga Chacra: O Irã está ‘forçando a mão’ ao atacar navio em Ormuz? Para escapar de minas marítimas: Entenda plano para liberar Estreito de Ormuz e retirar 11 mil marinheiros retidos no Golfo Pérsico A Arábia Saudita também relatou que um de seus navios na área foi atingido, e a Chancelaria do país pediu a Teerã que cesse imediatamente as “práticas que ameaçam a navegação marítima internacional e o fornecimento global de energia”. Os incidentes ocorreram apesar do cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã na guerra iniciada por ataques americanos e israelenses contra Teerã no fim de fevereiro, e em meio ao período de dois meses de negociações entre americanos e iranianos para um acordo de paz que cessaria de forma definitiva o conflito no Oriente Médio.
Até agora, não houve avanços concretos nas conversas. Após os ataques, os preços do petróleo fecharam em alta nesta terça-feira. O preço do petróleo Brent, proveniente do Mar do Norte, para entrega em setembro, subiu 3,01%, para US$ 74,16 o barril.
Seu equivalente nos EUA, o petróleo bruto West Texas Intermediate (WTI), para entrega em agosto, subiu 2,76%, para US$ 70,44 o barril. Horas antes da retaliação militar, o Departamento do Tesouro dos EUA anunciou a reimposição das sanções ao petróleo iraniano, suspensas desde o mês passado como parte das negociações entre Washington e Teerã. Em comunicado, o departamento afirma que “o Irã só colherá benefícios se demonstrar boa conduta”, e que “as ações do Irã no Estreito [de Ormuz] foram totalmente inaceitáveis para os Estados Unidos e acarretarão consequências”.
A decisão só passará a valer no dia 17 de julho, sexta-feira que vem, teoricamente dando algum tempo para que os negociadores a revertam. Veja fotos do Estreito de Ormuz, foco de tensão entre Irã e Estados Unidos 1 de 12 Navio comercial visto da costa de Dubai em meio ao fechamento do Estreito de Ormuz — Foto: AFP 2 de 12 Estreito de Ormuz é uma região entre Irã e Omã — Foto: Reprodução/Nasa 3 de 12 Navios na costa de Dubai em meio à crise no Estreito de Ormuz — Foto: AFP 4 de 12 Imagem de satélite mostra a localização do Estreito de Ormuz — Foto: Divulgação/Nasa via AFP 5 de 12 Navio é visto perto da costa de Ras al-Khaimah, nos Emirados Árabes Unidos, a caminho do Estreito de Ormuz — Foto: AFP 6 de 12 Navio da Guarda Revolucionária em exercício no Estreito de Ormuz — Foto: SEPAH NEWS / AFP 7 de 12 Lancha se aproxima de navio no Estreito de Ormuz — Foto: Giuseppe CACACE / AFP 8 de 12 Lancha trafega pelo Estreito de Ormuz perto da costa dos Emirados Árabes Unidos — Foto: FADEL SENNA / AFP 9 de 12 Cargueiro tailandês foi atacado perto do Estreito de Ormuz, no último dia 11 — Foto: AFP 10 de 12 Navios petroleiros na região do Estreito de Ormuz — Foto: Giuseppe Cacace/AFP 11 de 12 Petroleiros seguem fundeados no Terminal de Carga de Khor Fakkan, nos Emirados Árabes Unidos, no Estrei no Ormuz — Foto: AFP 12 de 12 Navio da Marinha iraniana participa de exercícios navais na região do Estreito de Ormuz — Foto: EBRAHIM NOROOZI /JAMEJAMONLINE/ AFP PHOTO Até o momento, o Irã — que está em meio às cerimônias de sepultamento de seu líder supremo, Ali Khamenei, morto em fevereiro — não assumiu a autoria dos ataques. Em comunicado, o Ministério das Relações Exteriores chamou as alegações do Catar de “desconcertantes”, e disse que está comprometido em garantir a navegação na área.
Mas em uma segunda declaração, Teerã disse que navios que usam rotas “não coordenadas” em Ormuz se expõem a riscos. Por fim, os diplomatas acusaram os americanos de violarem os termos do memorando de entendimento firmado no ano passado ao retomarem as sanções ao petróleo. “O Ministério das Relações Exteriores da República Islâmica do Irã, ao mesmo tempo que alerta para as consequências da violação do tratado pelos Estados Unidos, tomará todas as medidas que julgar necessárias para proteger seus interesses e sua segurança nacional”, acrescenta o comunicado.
Em 20 de março, o governo americano anunciou uma primeira suspensão das sanções comerciais contra o petróleo do Irã para tentar conter a elevação acentuada de preços da commodity no mercado internacional. A medida era limitada a 140 milhões de barris de petróleo iraniano que já estavam carregados em navios e valeu até 19 de abril. O memorando de entendimento de 14 pontos assinado por Trump e pelo presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, em 17 de junho, previa a remoção de todas as sanções americanas ao Irã em um “cronograma acordado”.
O documento também determinava que o Departamento do Tesouro concedesse suspensões temporárias das sanções vigentes por 60 dias, enquanto as negociações técnicas que levariam a um acordo de paz entre as partes avançariam. Em 22 de junho, após a conclusão da primeira rodada de negociações entre os dois países na Suíça, o Departamento do Tesouro dos EUA anunciou a suspensão de sanções ao petróleo de Teerã até 21 de agosto. Uma licença publicada no site do órgão indica que “todas as transações” antes “proibidas” e relacionadas à produção, venda e transporte de hidrocarbonetos de origem iraniana ficam autorizadas até a data.
As delegações americanas e iranianas também concordaram em estabelecer linhas de comunicação para manter o Estreito de Ormuz aberto e interromper a guerra no Líbano.